Um, dois e já

19/04/15

Uma sensação, que me acomete com certa frequência, é a amarga percepção de que a vida está passando por mim como se eu fosse uma presença incorpórea e desimportante. Como se essa existência estivesse passando ao meu lado, quase como se eu a pudesse tocar, mas por mais que eu me esforce na tentativa de esticar cada vez mais o braço, é inútil. Eu continuo caminhando, continuo rumo a algum lugar que desconheço, mas não faria diferença se eu, conscientemente, decidisse me manter parada, porque tudo ao meu redor segue em uma velocidade vertiginosa que, simplesmente, não consigo acompanhar. E, por mais que eu corra, sou sempre a que fica para trás. Pensamentos como esse redemoinhavam na minha cabeça mesmo antes de ter um encontro com “Um, dois e já”, da uruguaia Inés Bortagaray e só aumentaram de intensidade quando, nas primeiras páginas, me deparo com o seguinte trecho:

“Um, dois, três, quatro, catorze postes. Quinze, vinte, trinta e seis, cinquenta e cinco postes. Os postes se movem e eu estou quieta. Avançam para trás, em direção ao que já passou. Mesmo que meu pai parasse de dirigir, se ele se negasse a acelerar, freasse de repente, esses postes e essas linhas seguiriam viagem.”

Não sei se minha relação entre uma coisa e outra faça algum sentido, ou na verdade talvez eu saiba que não faz sentido algum e só precise criar interpretações que expliquem minha identificação com postes. Curioso que Um, dois e já é o tipo de livro passível de ser lido em poucos minutos e pode ser facilmente esquecido depois, mas, contra tudo que eu esperava, nesses poucos minutos – os quais tive que estender por meses – fui confrontada a extrair dessas poucas páginas mais de mim do que uma simples e curta história de ficção. Talvez esse mix de emoções já estivesse pronto para emergir e Um, dois e já se tornou o catalisador poderoso que me permitiu colocar tudo para fora.

Uma dose de literatura infantil

01/03/15

Vários gêneros literários são relegados ao que alguns insistem em chamar “baixa literatura”. São eles o policial, a fantasia, a ficção científica e – aquele a que pertencem as duas obras de que tratarei aqui – a literatura infantojuvenil. Felizmente essa realidade de diminuir aquilo que não se encaixa em moldes engessados, é algo que vem mudando gradativamente. E para exemplificar a qualidade presente nas obras do gênero, trouxe dois livros recentemente editados aqui no Brasil que, sem dúvida, hão de mudar a concepção até do mais duro coração no que concerne a literatura infantil.

As cinco melhores leituras de 2014

20/12/14

Lá vamos nós rumo ao fim de mais um ano. E foi um ano complicado. Não cabe aqui enveredar (muito) por outros caminhos que não seja o da literatura, de modo que, até as minhas leituras foram uma questão complicada. Mas li. Pouco, é verdade, mas li. E é sobre as melhores leituras desse ano tão estranho e bom, e ruim também. Tudo bem que fui uma vergonha completa em escrever aqui – ou escrever coisas boas sobre coisas boas já que esse é o objetivo da coisa toda – durante esse 2014 maluco aí, mas voltei. Por hora para falar dos melhores encontros que a literatura me proporcionou. Sobre outras possíveis coisas, o futuro dirá... Mas chega de lero-lero e vamos ao que importa: os cinco melhores livros de 2014!

Viver – Yu Hua

29/06/14

Já escrevi e reescrevi inúmeras maneiras de começar este texto, e nenhuma me pareceu ao menos razoável. Cheguei até a desistir de tentar organizar toda a bagunça que essa leitura deixou, e procurar por um método que pudesse transcrever tudo em palavras, mas até mesmo na tarefa de desistir, eu falhei. Falhei e voltei atrás porque passaram-se dias e Viver não me deixou, fixou-se nos meus pensamentos e me forçou a escrever algo aos trancos e barrancos, não me deixando nem mesmo a escolha de escolher fugir. Agora, especificamente, vejo o quanto o título grita. Viver é mais do que uma palavra, mais do que um conjunto qualquer de letras, viver é a essência. Num primeiro momento considerei o título como mais uma das ironias de Yu Hua, mas agora... Agora vejo que nenhuma outra palavra, mesmo que de significado parecido, conseguiria se equiparar a grandeza de, veja que simples, viver. É tremendo. E triste. Uma história que abrange meio século, que narra uma vida, que passa até mesmo pelas transformações políticas da China contemporânea.

 
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